quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Mais Feliz ainda em 2010



"Se achar que precisa voltar, volte! Se perceber que precisa seguir, siga! Se estiver tudo errado, comece novamente. Se estiver tudo certo, continue. Se sentir saudades, mate-as. Se perder um amor, não se perca! Se o achar, segure-o! Circunda-se de rosas, ama, beba e cala. O mais é nada". Fernando Pessoa

Momento bukowskiano

Fujo a líricas e canções mil!
Fujo do mundo ceciliano!
Quero o chão, o raso,
sentir o cheiro do podre,
o gosto do ácido.
Quero o sexo vadio,
sem nome nem rótulos.
Corpo sem etiqueta.
Como a cerveja no fim de noite.
Não quero o êxtase, prazer indefinível.
Quero o gozo, prazer que arranha
as entranhas do meu corpo.
Chega de figuras de linguagem vãs,
inúteis e artificiais, cheirando à plástico.
Quero a palavra torta,
Sangrando em minhas mãos,
em minha boca...
A palavra no cio, pingando vida,
verdades descabidas,
mentiras necessárias.
Quero a vida sem ambigüidades,
vida sem saber que é vida,
para não discutir a morte.
Quero o concreto...
Poder tocar tudo que me cerca:
as idéias, o olhar...
a aspereza da tristeza,
deliciosamente azeda.
Orides Silent(São Leopoldo-RS)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Acordar,viver

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.


Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?


Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?


Ninguém responde, a vida é pétrea.(Drummond)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009







Perdi, com o tempo e as esperas, a cabeça. Alterei os calendários e as horas para ser sempre horas de estar aqui, de estar contigo e apenas me restou as chávenas vazias e o fantasma do teu toque onde não estás mais.A minha vida toda como a Alice no chapeleiro, em círculos, pressentindo a tua presença, esperando-te. Nada acontecerá aqui, no país das maravilhas que é só onde estamos os dois, nada a não ser este teu vago sabor nos meus lábios, nos objectos que tocaste e eu toco depois de ti. Ah, poderás tu trazer-me deste tempo circular onde não estás nunca, poderás tu trazer-me para o presente deste lugar secreto onde estamos juntos, deste lugar secreto onde me escondo e que não existe?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009


Se eu pudesse voltar atrás até ti, se pudesse mudar maré de tempo e dor que nos afastou, quereria ir até ao momento em que começaste a afastar-te de mim, o momento exacto em que começaste a dizer-me o princípio deste longo, longuíssimo adeus. Diz-me, tu, nesse momento, como fizeste para desatar o amor? Como se faz para desamar, deixar o amor partir sem o segurar, sem o segurar cegamente, apesar de tudo?Se pudesse voltar a esse momento, ao preciso momento em que te afastavas de mim, olhar-te-ia mais longamente que o fiz então, o teu corpo amado de costas voltadas para mim, a afastar-te resolutamente, e para sempre, daquilo que tínhamos juntos. Talvez se me tivesse apercebido do definitivo de todas as coisas te teria dito adeus mais facilmente, com menos dor, enquanto o meu corpo guardava ainda o calor do teu, o cheiro do teu, a memória táctil da tua pele enquanto te amava ainda, livre de todas as dores. Talvez fosse mais fácil este longuíssimo adeus que te digo, com menos fios de dor e de raiva e de fúria para desatar e deixar cair.Diz-me, tu que te afastaste tão resolutamente, como fizeste para desatar os nossos laços, diz-me, onde começaste a dar-me o adeus que seria definitivo, em que ponto te começaste, lenta e seguramente a afastar de mim? Como fizeste para acabar assim o amor, fechá-lo como uma torneira, sem gotas que se arrastam?Se pudesse voltar atrás, aquele preciso momento em que estava ainda cheia de ti, de nós, dir-te-ia o adeus que o nosso amor merecia, sem choros, sem dores, não este monstro de silêncios e dúvidas que depois foi, não este buraco negro de ausência em que todas as coisas boa que tivemos se esgotaram e desapareceram.Tu que te afastaste tão seguramente, diz-me, como se acaba o amor, como se faz? Como se cortam os laços?

sábado, 19 de dezembro de 2009

recomeçar



Pelo menos a infelicidade não é já activa e imperativa. Pelo menos os gestos cotidianos saem já com a graça líquida de todos os costumes automáticos. Nos dias cinzentos o frio entra pela pele desprotegida e branca que não se expõe e num lugar qualquer do mundo há outras coisas quaisquer. Pelo menos somos vizinhos da felicidade e por entre as paredes ouvimos-lhe os murmúrios, ou melhor, os rumores: ao fim da noite há sempre olhos rodeados de linhas como se estalássemos a caminho de uma quebra qualquer. Noutros lugares do mundo, tenho certeza, haverá recomeços e risos, a serenidade líquida da leiteira de Vermeer, por todos os inúteis séculos de esperas, tristezas e desapontamentos haverá sempre o amarelo -limão da luz capturado para sempre como numa teia brilhante de mentiras. Mas pelo menos não é já a infelicidade imperativa: empilhamos os segundos, como caixas, até enchermos o minuto até ao seu limite, recomeçamos outra vez. Sísifo mostra-nos, arrastamo-nos até ao limite e o abismo e depois recomeçamos outra vez até ao fim da hora.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Memorizo-te pelo tacto, como uma cega, quando estás perto, e reconstruo as partes de ti quando estás longe através dos olhos e da memória. Só assim te guardo comigo, só assim estás em mim que não de uma forma menos vaga, mais concreta. Existes em mim como fumo quando te queria carne e sangue, quando te queria verdade concreta como as coisas que se vêm e se sentem e se tocam e se cheiram e se provam. Tomo de ti aquilo que posso, como uma cega, aquilo que me deixas.

Fica...




Fica comigo um bocado, um momento, fica comigo neste momento enquanto preciso de ti e me fazes falta, fica comigo. Prometo pôr de lado o amor, prometo pôr de lado o desejo e a necessidade e todas as coisas que não queres nem precisas, fica. Não te falarei do medo e dos anseios, do orgulho que não me deixa dizer-te que te quero e preciso, que me fazes falta.
Fica comigo até à escuridão imensurável da solidão da noite, fica para lá dela, até à luz e à quietude branca de não querer mais nada. Fica o que puderes ficar, o que quiseres ficar, até onde suportares a proximidade silênciosa do nós que não se diz. Fica.