sexta-feira, 31 de maio de 2013

Sibila libica

Sibila persica
Sibila de delfos

Sibila cumena

terça-feira, 28 de maio de 2013

solidão

Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.   Sem ela não me ouço, não ouso, não me fortaleço.   Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço.   Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em mim,   não aquieto meus pavores, meu medo de ser só.   Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando migalhas,   confundindo estar cercada por pessoas com ter amigos.   Sem ela me manterei aturdida, ocupada, agendada só para driblar o tempo e não ter que me fazer companhia.   Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei ideias tolas só para não ter   que me recolher e ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo.   Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei vazia em leitos áridos.   Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me desconhecerei, me perderei.   Solidão é o lugar onde encontro a mim mesma, de onde observo um jardim secreto e por onde acesso o templo em mim.   Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui dentro.   Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é coisa do sábio que podemos ser.   Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz a solidão pode ser oásis e não deserto.   Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito a solidão pode ser resgate e não desacerto.   Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa espertalhões, turbinados, boçais a solidão pode ser proteção e não contágio.   Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo a solidão pode ser liberdade e não fracasso.   Solidão é exercício, visitação.   É pausa, contemplação,observação.   É inspiração, conhecimento.   É pouso e também vôo.   É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma,   da memória, dos sonhos; quando a gente se retira da multidão e se  faz companhia.   Preciso estar em mim para estar com outros.   Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado.   Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos.   Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando,uma comunidade.   Somos sociáveis, gregários.   Queremos amigos, amores.   Queremos laços, trocas, contato.   Queremos encontros, comunhão, companhia.   Queremos abraços, toques, afeto.   Mas, ainda assim, ouso dizer:   é preciso aprender a estar só para se gostar e ser feliz.   O desafio é poder recolher-se para sair expandido.   É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o   caminho e esquecer o medo da própria sombra.
 Fique em ótima companhia

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Banksy


O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Manoel de Barros