domingo, 7 de fevereiro de 2010


Não há mérito especial em sobreviver, o corpo sabe mais dessas coisas que nós, respira, segue, anda, reproduz-se e morre em milhares de células. Daqui a uns tempos nada de mim será aquilo que era então, todas as células de pele que tocaste foram-se dissolvendo em pó , partículas no ar que me rodeia e inspiro, sorvendo aquilo que fui e expulsando-o de novo num gás inerte, num circulo interminável. Mesmo as memórias se vão apagando em gestos esquecidos de partilha, toques mortos em voo, como pássaros a voarem contra janelas, contra todos os muros de impossibilidades. Sobrevivo. Há algum conforto em saber tudo o que me rodeia, na sua imensa vastidão de gestos partilhados e amores felizes, em ser vizinha e testemunha fugaz de coisas grandes e verdadeiras, mas é um conforto impessoal, uma espécie de dor surda e permanente de falhanços e más escolhas do negrume da depressão. Sobrevive-se através de gestos cotidianos de quase felicidade, uma linha ténue entre resignação e contentamento, não há mais para além disto e, mesmo se houvesse, quem nos levaria para longe daquilo em que nos tornámos? É tarde e fazemos da vida aquilo que podemos, não aquilo que queremos, nunca aquilo que queremos. Serve ainda a boca para beijos e o corpo para tudo o resto, servem ainda as mãos para dar, servem as palavras para articular pontes, mas é como se tivesse perdido o conhecimento do uso dos objetos e fossem desconhecidos hostis, como se tivesse perdido o uso da fala e dos sentidos e os visse, fechados, longe, sem aceder a eles senão em memórias fugazes e esperanças fúteis, tão fúteis daquilo que poderia ter sido e nunca foi senão em desapontamento.
Passionária

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Caio Fernando Abreu


"Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que você fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigências. E sem solicitações, aceitar o que me era dado. Sem ir além, compreende? Não queria pedir mais do que você tinha, assim como eu não daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. "

domingo, 24 de janeiro de 2010

domingo, 17 de janeiro de 2010


Que doçura esta, a nossa, que guarda o sol e o calor dentro dela mas apenas se revela na escuridão, que apenas cresce e floresce no escuro secreto para ficar como será depois, inebriante?

sábado, 16 de janeiro de 2010


A TERRA TREME EM PORT-AU-PRINCE"

Eis como tudo perde de repente
o significado de ser ou de não ser!
de estar, de querer ou do Poder!

Se até o Poder cai na súbita
derrocada da terra
que submerge os Crentes, os Pagãos
e os filhos de um deus menor.

A terra treme em
Port-au-Prince
chorando a natureza soterrada
de homens e crianças

numa amálgama de escombros
e membros
crucificados num ámanhã sem esperanças.

A terra treme
em Port-au-Prince!

13 DE jANEIRO DE 2010
LuizaCaetano

*O poeta chora com palavras...

domingo, 10 de janeiro de 2010

Tento abotoar meu coração...em vão

sábado, 9 de janeiro de 2010

RELIGIÃO

A poesia é minha
sacrossanta escritura,
cruzada evangélica
que deflagro deste púlpito.

Só ela me salvará
da goela do abismo.
Já não digo como ponte
que me religue
a algum distante céu,
mas como pinguela mesmo,
elo entre alheios eus.

Valdo Motta