quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Os segredos da alma



Acordei, cheia de doces na língua.
Com vontade de me agarrar a uma orelha amiga,
Mas quando a tinha os segredos não se quiseram escapar!
Agarraram-se ao coração,
E por mais vontade que a língua tinha
As palavras não eram suficientemente grandes.

Os espasmos da alma foram tão bem concebidos
Que por mais que os queira transmitir,
Contar a toda a gente, correr a gritar a felicidade que sinto,
O segredo é só meu!

Eles guardam-se, acolhem-se no meiozinho do coração.
Enroscam-se por lá…
Lançam-me mensagens
E os meus lábios respondem-lhes em reflexo condicionado.

Quem inventou os sentimentos, codificou-os de uma forma tão perfeita, que só cada um de nós sabe o que significa, só para nós!
Bárbara-Lisboa /Portugal

sábado, 8 de agosto de 2009

CATANDO ESTRELAS



Passei a madrugada,
lua cheia no céu,
vagalumes nos olhos,
cestos de solidão,
recolhendo as estrelas
caídas em teu portão.

Vou entrar agora,
buquê de flores
despetaladas
no colo,
caixinha de estrelas,
jóia,
coração na mão.

Queria ser uma
dessas flores miúdas,
beijinhos
plantados em teu caminho.

Mas meu desejo maior é ser
a rosa rubra
que trazes no peito.


Carmen Regina

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Laços


O poeta cria laços
como guirlanda de fetiches,
leves,desprendidos,despretenciosos,
imprevisíveis
Cultuam Bacos e Apolos
na saga das horas que silenciam
E no mais casto extase
celebram os prazeres interditos

Poetas...ah!como são lascivos

terça-feira, 4 de agosto de 2009



A vida é um momento para ser celebrado, desfrutado.
Torne-a divertida, uma celebração, e então você entrará no Templo.
Esse templo não é para os tristes e desanimados, nunca foi para eles.
Olhe para a vida: você vê tristeza em alguma parte?
Você já viu uma árvore deprimida?
Você já encontrou um pássaro movido por ansiedade?
Já viu um animal neurótico?
Não, a vida não é assim, absolutamente.
Só o homem é que seguiu um caminho errado, se desviou em algum lugar, porque ele se considera muito sábio, muito esperto.
Sua esperteza é o seu mal.
Não seja sábio demais.
Lembre-se sempre de parar...
Não vá a extremos.
Um pouco de tolice e um pouco de sabedoria fazem bem, e a combinação certa faz de você um buda...

Osho

domingo, 19 de julho de 2009

A palavra



A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, uma anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.
Antonio Ramos Rosa

quinta-feira, 2 de julho de 2009










Em 1611, Shakespeare escreve sua última peça- A Tempestade.
Próspero, duque de Milão, é banido de seu reino por seu irmão e opositores, que o atraiçoam e o colocam num barco sem remos ou rumo.
Deixado a deriva, para morrer ‘a mingua, Próspero e sua filha pequena sobrevivem, chegando a uma ilha isolada e totalmente inabitada, distante de tudo, povoada apenas por espíritos e é apenas com eles que passam a conviver daí em diante.Próspero dedica-se, por muitos anos, a controlar e manter sob suas ordens estes espíritos, banido num mundo desumanizado, exceção feita à sua filha, a pequena Miranda, que trata de educar com esmero. Dentre os espíritos encontram-se Ariel, que representa o que há de melhor na natureza humana e também Caliban, o espírito bruto e incapaz de aprender e experienciar, voraz, ligado apenas a seus próprios instintos descontrolados.
Muitos anos depois, um naufrágio traz à ilha seus opositores e a vingança se torna possível. Miranda encontra os náufragos e, sem contato prévio com outros seres humanos, maravilha-se com este “admirável mundo novo” que se descortina diante dela, apaixonando-se por um homem do grupo.Dentre os náufragos também está Gonzalo, homem justo e bondoso, que dera ao pai e à filha, às escondidas, provisões, roupas, livros, enfim, objetos que lhes permitiram sobreviver na ilha.
Através do olhar de Gonzalo e de Miranda, Próspero reencontra sua humanidade, abdicando da magia e de viver na ilha solitária, liberta os espíritos, e decide retornar ao convívio dos homens.
Eis o que diz Próspero ao tomar essa decisão:
"Meus olhos, só pela visão dos seus,
Pingam de amor. O encanto se dissolve;
E como a aurora surpreende a noite
Derretendo o negror, os seus sentidos
Renascem e começam a banir
A névoa de ignorância que ora encobre
A razão clara
. "
(W.S.- A Tempestade)
Gostaria de acreditar que ainda hoje, até mesmo os banidos, os atraiçoados e destituídos de sua humanidade podem ser resgatados desta condição, através de um encontro humano. Gostaria que a Miranda em mim não se desiludisse de vez.
Eu temo preferir manter-me numa ilha isolada, sob controle, abdicando do convívio do mundo em vez de retornar a ele e combater, do modo que posso, a usurpação, a desonestidade e a corrupção.

Enigma



Todo mundo tem, ao menos, um enigma na vida.
Segredos de si mesmo, moldados em tempos primevos, originados de uma questão, de perguntas sem resposta. A busca desta ou destas respostas se traduz numa canção tema, uma melodia singular, algumas vezes tocada fortissimo, outras vezes tocada docemente, de forma quase imperceptível.
Falo todo mundo porquê assim o sinto. Sim, tenho a pretensão de poder falar de mais do que de mim. Falar de mim, não me bastaria. Não sei falar de mim sem dirigir-me a ti, sem incluir-te em mim.Sei, que o que quer que eu fale, dará apenas uma imagem de mim - produzirá uma imagem de mim vista por ti.
Para formular-me em perguntas preciso de sinais e olhares e palavras, aquém e além de mim.
Estou e não estou só quando toca a música que dedilha meus enigmas - de fora dela vem outros sons e neles me desdobro em infinitas variações.