Desenha para mim
o que nos dois não podemos fazer
desenha os nossos corpos quentes
que se penetram, que se aspiram
os nossos lábios que se calam,
palavras sórdidas do esquecimento
talvez deste modo saberás
como me desejas
o quê? outra vez esse medo?
e tu traças linhas sobre linhas
deixando contornos de terra deserta
sem vida, uma só superfície
tranquilo deito-me sobre ti
e tento absorver-te.
Traduçäo: Luís Filipe Sarmento
sexta-feira, 5 de junho de 2009
numa noite profunda, quando nem sabes,
me rastejo ao quarto
em silêncio me proximo
sob a luz da vela, observo a tua face
como um feiticeiro
coloco-me as mãos
por cima de ti
quando nem sabes, nem sentes,
quando nem podes me empurar,
deito-me, engostando-me em ti,
suavemente para não te acordar
nesses momentos, penso ditosamente,
que ainda não há perguntas, nem dúvidas
como o rio serpenteamos através do tempo
embaraçados, na profundidade
há ainda peixes, e nas poças
umas mãos, uma boca bebem com paixão
lenta, sériamente, como um ritual.
Tradução: Jasmina Markič
me rastejo ao quarto
em silêncio me proximo
sob a luz da vela, observo a tua face
como um feiticeiro
coloco-me as mãos
por cima de ti
quando nem sabes, nem sentes,
quando nem podes me empurar,
deito-me, engostando-me em ti,
suavemente para não te acordar
nesses momentos, penso ditosamente,
que ainda não há perguntas, nem dúvidas
como o rio serpenteamos através do tempo
embaraçados, na profundidade
há ainda peixes, e nas poças
umas mãos, uma boca bebem com paixão
lenta, sériamente, como um ritual.
Tradução: Jasmina Markič
desejo ainda mais e mais beijos, as convulsões
dos corpos atados, caminhemos ainda mais devagar
através do bosque, sonhando
que tudo é de outra maneira
nos matizes do tilintar das imagens que criamos
- de madrugada tive pesadelos, sobre a força,
sobre a violência, sobre a renúncia da vida.
levantei-me, aproximei-me aturdido por facas
olhei-as demoradamente, vazio, espremido
depois sentei-me, pensava no irreal
quis-me afundar ainda mais e mais
na eterna delícia da entrega, na pele
no olhar cálido dos olhos, na carícia
rasguei uma longa lista de acessórios
para o assalto, para o combate, para a defesa
vertia àgua e bebia-a, lentamente
longamente, como daqui para lá.
Tradução: Luís Filipe Sarmento
dos corpos atados, caminhemos ainda mais devagar
através do bosque, sonhando
que tudo é de outra maneira
nos matizes do tilintar das imagens que criamos
- de madrugada tive pesadelos, sobre a força,
sobre a violência, sobre a renúncia da vida.
levantei-me, aproximei-me aturdido por facas
olhei-as demoradamente, vazio, espremido
depois sentei-me, pensava no irreal
quis-me afundar ainda mais e mais
na eterna delícia da entrega, na pele
no olhar cálido dos olhos, na carícia
rasguei uma longa lista de acessórios
para o assalto, para o combate, para a defesa
vertia àgua e bebia-a, lentamente
longamente, como daqui para lá.
Tradução: Luís Filipe Sarmento
A principal preocupação da poesia de Brane Mozetič é o corpo em diferentes posiçoes, em situações limítrofes, torturado e compungido, frágil e vulnerável, exposto às formas extremadas de entrega ao outro. A poesia leva o erotismo ao corpo, mas não se detém na nudeza, talha na profundidade, corta até o sangue e gira ao redor do paradoxo da entrega simultânea com a dominação; assim a poesia não nasce da entrega estática e da exigência intransigente de tudo, o que produz uma impressão provocante e audaz a causa da escrita desenfreada do amor homossexual, doce e proibido.
O Poema Frio
Mas meu silêncio
é fruto dos dias de solidão.
Solidão que escolhi,
e que, grande companheira
me permitiu olhar os dias
de maneira sutil e generosa.
Me fez ver os homens
e seus rebanhos sem fim
com certa desconfiança.
Sim, eu sei...
Recluso em meio à multidão,
espalhei curiosidade e medo.
Mas é tudo tão simples...
Eu só queria ficar sozinho!
Mas agora vem você
que se impõe e se instala
no meio da sala
reservada às canções
e aos devaneios
deste verão chuvoso.
E agora menina?
O que vamos fazer com isso?
Dar ao mundo um início,
e costas ao precipício?
Isto não é um poema de amor.
Esta não é uma canção de paixão.
É só a minha forma solitária
de dizer que já sou teu.
Anderson Julio Lobone
terça-feira, 2 de junho de 2009
Gato

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.Fernando Pessoa
janeiro de 1931
domingo, 17 de maio de 2009
citação aleatória
"É possível que a gente queira mesmo bem, como se odiasse mortalmente?… Torça o próprio coração, ou o morda, até sangrar vazio e dolorido e despedaçado? Pois é como ama quem tem ciúmes…" — Afrânio Peixoto
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