terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Não me devolva o sapatinho que perdi
Prefiro o prazer da liberdade
dos meus pés descalços.

Não me acorde do êxtase
provocado pela doce maçã enfeitiçada
que minha curiosidade me levou a provar.

Não reduza meu espaço
Ao teu reinado.
Não me retire da minha torre
Para me trancar em teu castelo.

Domei dragões
e desfiz feitiços.

Já sou feliz para sempre!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

As Coisas ( Mario Quintana)

O encanto
sobrenatural
que há
nas coisas da Natureza!
No entanto, amiga,
se nelas algo te dá
encanto ou medo,
não me digas que seja feia
ou má,
é , acaso, singular...
E deixa-me dizer-te em segredo
um dos grandes segredos do mundo:
-- Essas coisas que parace
não terem beleza
nenhuma
-- é simplesmente porque
não houve nunca quem lhes desse ao menos
um segundo
olhar!

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Edward Hopper



Andar a ouvir um tipo e a ver quadros de outro ao mesmo tempo tem destas coisas: em dado momento pareceu-me que "Because of" do Cohen também servia bem a minha relação com Hopper, nos últimos dias revisitado, um dos residentes mais antigos do meu caos de trazer por casa. Desde que o conheci até agora, que consiga lembrar-me, gostei do Hopper: pelo azul e pelo mar; pelo espaços e pelo vazio dos espaços; pelo cor-de-laranja; pelos faróis; pela solidão; pela luz branca, que é leve, pesada, exacta; pelas cidades; pelo cansaço e pela desilusão; por algumas árvores numa aguarela; pela alegria; pelo corpo em frente ao sol; pelas casas magníficas. Cada fase durou o seu tempo e em cada uma delas, saciada de luz, eu gostei do Hopper mais um bocadinho.Em Hopper a hora que nunca passa e nunca se acaba é a do meio-dia e a luz cai sempre a pique. Mesmo nos interiores nocturnos, quando o esverdeado sombrio do ar nos agiganta as pupilas fá-lo como uma falha, como o meio-dia que não é, não está, mas devia. E a menina do Hotel Room não queria estar ali. Ou queria, mas de dia e com a porta aberta. Solar, em bruto, primordial e granulosa, a luz do meio-dia do Hopper é também a luz do mar alto. Hopper adorava navegar e o primeiro quadro que alguma vez vendeu foi este(sailing.c.1911)(acima)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Abril

Adriana calcanhoto

Sinto o abraço do tempo apertar
E redesenhar minhas escolhas
Logo eu que queria mudar tudo
Me vejo cumprindo ciclos, gostar mais de hoje
E gostar disso
Me vejo com seus olhos, tempo
Espero pelas novas folhas
Imagino jeitos novos para as mesmas coisas
Logo eu que queria ficar
Pra ver encorparem os caules
Lá vou eu, eu queria ficar
Pra me ver mais tarde,
Sabendo o que sabem os velhos
Pra ver o tempo e seu lento ácido dissolver o que é concreto
E vejo o tempo em seu claroescuro
Vejo o tempo em seu movimento
Me marcar a pele fundo, me impelindo, me fazendo
Logo eu que fazia girar o mundo,
Logo eu, quem diria, esperar pelos frutos
Conheço o tempo em seus disfarces, em seus círculos de horas
Se arrastando feito meses se o meu amor demora
E vejo bem tudo recomeçar todas as vezes
E vejo o tempo apodrecer e brotar
E seguir sendo sempre ele
Me vejo o tempo todo começar de novo
E ser e ter tudo pela frente

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

http://br.youtube.com/watch?v=QJ6sg5HEd8s

sábado, 3 de janeiro de 2009

BAGAÇO
(Teresa Drummond)

Por que mastigar o bagaço
da esperança?

Fiapo nos dentes...
Farrapo no peito...

De si, o amor antigo vive
inda que desnutrido de presença,
mas nega a sentença do abismo.

Tantas traças...
Rosas secas no emaranhado do corpo
e de cartas
amareladas no silêncio
do não-dito.

O amor antigo subexiste
de sonhos
e de enganos
...até, e somente até,
o desconjulgar do hábito
infinitivo
de amar à toa.

domingo, 14 de dezembro de 2008

isso é tudo

"Eu vou embora sozinha. Eu tenho um sonho, eu tenho um destino, e se bater o carro e arrebentar a cara toda saindo daqui. continua tudo certo. Fora da roda, montada na minha loucura. Dá minha jaqueta, boy, que faz um puta frio lá fora e quando chega essa hora da noite eu me desencanto. Viro outra vez aquilo que sou todo dia, fechada sozinha perdida no meu quarto, longe da roda e de tudo: uma criança assustada"
CAIO FERNANDO ABREU