terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Capitão Romance

por querer mais do que a vida
sou a sombra do que eu sou
e ao fim não toquei em nada
do que em mim tocou.

Manel Cruz dixit

last day


Eram dias tristes. Ou mais tristes ainda, não te sei dizer. Olhar os meus sapatos a calcarem a chuva enquanto ouvia música urbana (dessa que faz os prédios mais cinzentos e a humanidade mais desamparada) a caminho do metro, era tudo o que eu queria e gostava de fazer.
Também não sei explicar o poder dos céus e do desconhecido sobre a minha pessoa, por essa altura. Era aquela luz, aquela aura de cidade gigante que não nos esperava tão cedo, já não sei. As pessoas que falavam uma língua que pouco compreendo e lugares e mais lugares e jardins e estátuas e pássaros e casacos e sapatos e árvores e sorrisos e pedintes e carros e calor e o medo e cansaço e umidade e angústia e incerteza e desgosto. Acima de tudo, desgosto.
Não esse desgosto de desagrado pelo que estamos a viver. Era mais aquele desgosto de desalento pelo que nos tornamos. Esse desgosto de já não podermos voltar atrás e corrigirmos as nossas acções.
by Pedro Barbosa

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Enquanto isso...


E Noé bateu seu cajado , contou um carneirinho ,dois carneirinhos ... mas a insônia não passava então ele ligou a tv a cabo e descobriu que mais de onze mil pessoas tinham morrido no Azerbaijão."

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Mãos dadas


Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
(Drumond)

domingo, 27 de janeiro de 2008

Eu não sei,vc sabe?


Realmente eu não sei
se estou sábia
se me encontro na Arábia
entre véus e esses panejamentos
Se estou à vera
ou se atravesso a Era
agarrada a pensamentos

Quem sabe as estradas padecem de Parkison
trêmulas,quebram o silêncio do parque
Quem sabe as estrelas estão Alzaimer
esquecem de iluminar aquela parte
e o escuro ficou só...

Quem sabe é sábio?

Uma coisa é certa
essa massa encefálica
toca a rua deserta
de coturno e meias listradas.

Ciça#3

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Circo de presságios



O tempo passa, a dor não...
a injustiça é evidente
na trama da fogueira das vaidades.
Os injustiçados são seres que se alimentam das sobras
das bordas amassadas
do conto
contido
no canto
das sereias desvairadas.

A roda da fortuna
é uma carta fora do baralho
desbotado e frágil.
As asas da quimera
alçam um voô
infinito,torvelhinho.
Suas patas batem tropegas,
no vazio,
no marasmo,
enquanto as ventas
atropelam
o ar calmo
do mar Cáspio.

A quimera esbaforida
é mais um circo de presságios...

Eu queria contar pro tempo
o segredo da dor empalhada
mas as palavras nascem mortas
como os seres renegados
silenciosos...abortados.
Ciça#02